Cozinhando para o meu pai


By Nelson Corrêa w/ Blackberry Pearl @ Rio de Janeiro

Mesmo que não estivesse perfeito, ele sempre elogiava o resultado do almoço de domingo na minha casa, que era acontecimento constante, praticamente todas as vezes que ele e mamãe estavam no Rio. Nos últimos cem dias morando comigo, enquanto teve lucidez plena, que a doença foi reduzindo com muita velocidade e sensibilidade de paladar, que os remédios foram tirando aos poucos, e, ainda que fosse a comidinha do dia a dia, ele sempre me agradava e elogiava o resultado dos almoços ou das sopinhas noturnas e até mesmo dos eventuais doces de abóbora com coco.

Não sei onde li, ouvi ou assisti que cozinhar é uma das formas mais básicas de amor. É garantir a subsistência do seu grupo, é a continuidade de sua espécie, é o prazer de oferecer prazer e vê-lo realizado por quem se ama. É a continuação da amamentação, que pelo menos, para nós homens, é possível oferecer. Talvez por isso temos uma dependência tão grande da mesa. Aqui em casa, onde ninguém ainda nos deu chance da “crise da casa vazia”, cada um pode ter seus hábitos e viver sua vida independente, mas estando em casa, a mesa é o nosso prazer compartilhado. Vale até para o cafezinho do final da tarde. Só o café da manhã não acontece assim, pois trabalho e baladas impedem a tradição.

Adoro cozinhar. Cozinhando, estou meditando. Talvez por isso gosto mais de estar sozinho do que compartilhando o trabalho com outras pessoas ao fogão. Os cheiros da cozinha me remetem às cozinhas da minha infância, algumas das minhas mais antigas lembranças. Cozinhando para o meu pai no final dessa seu vida, me encontrei (me lembrei?) em diversos momentos com a minha vó Maria, mãe do meu pai. Me lembrei de certas misturas ou maneiras de usar simples temperos como ela usava ou fazia. Prefiro achar que ela me ensinou isso agora. Tudo bem?

Desde o dia que meu pai morreu, no mês passado, tem sido pesado cozinhar. Minha vó não tem me ajudado mais. Hoje mesmo, porém, com esse calor que tira a vontade de quase tudo, senti prazer retirando a pele e excesso de gordura de umas sobrecoxas de frango. Ralando pimenta do reino sobre elas, salpicando sal, um pouquinho de mostarda amarela, respingos de vinagre e molho inglês, muito alho amassado, folhas de louro e vinho branco. Deixei-as em um saco plástico por uma hora, trocando confidências com os temperos.

Levei ao fogo algumas batatas inglesas descascadas e cortadas em metades até levantar fervura. Desliguei e deixei-as banhadas e submersas na própria panela. O feijão preto já estava escolhido, tinha ficado de molho por uns 30 minutos e já estava na panela de pressão que apitava por 25 minutos. Hora de desligá-lo e refogá-lo. Nada de excessos, o tradicional. Assim como o arroz branco também. Não havia necessidade de fazer farofa, havia sobrado a quantidade certa na geladeira. Também estava prontinha a salada de beterraba e a alface lavada.

Ao forno com as sobrecoxas! Não sem antes pegar emprestado do refogado do feijão alguns pedacinhos bem pequenos de bacon e cebola, que foram delicadamente depositados sobre as sobrecoxas. Papel alumínio, fogo médio (210ºC) e mais 45 minutos. Tempo regulamentar esgotado, sem prorrogação. Nem perguntei ao Arnaldo se podia. Uma travessa nova, onde foi feita uma rápida apresentação de uns fios de azeite. Sobrecoxas transplantadas para a nova travessa e colocadas na parte de baixo do forno. Batatinhas na água agora morna, foram despertadas com a água sendo descartada, e, prontamente substituíram as sobrecoxas na travessa original, cheinha de caldo do vinho e temperos, adicionado dos líquidos e gordurinhas do cozimento das sobrecoxas.

Ah, claro, o papel alumínio joguei fora e o forno passei para 240/250ºC agora recebendo as duas travessas. Tão logo o azeite foi consumido pelo calor e pelas sobrecoxas, o que elas prontamente me avisaram pelo aroma e um leve chiadinho, virei-as na travessa e reguei-as, com o caldinho onde as batatinhas ganhavam cor e sabor. Mais uma viradinha e mais um pouquinho do caldinho. Nada que 10/15 minutos ou o tempo de colocar a mesa não fizessem parecer tudo muito rápido. É claro que as sobrecoxas e as batatinhas não foram para a mesa separadas. Cada sobrecoxa foi arrumada na travessa das batatinhas e seus restos de cozimento foram lavados pela última vez pelo caldo das batatinhas e misturados na travessa final.

Nem preciso dizer que adorei. Será que gostar da comida que cozinhamos é um ato de amor próprio? Prá que essa dúvida existencial agora. Estava bom. Todos gostaram. Basta.

Senti papai comigo na cozinha hoje. Acho que cozinhei de novo para ele. Foi muito bom.



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