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Cotidiano

VARIG

Tenho resistido à tentação de expor meu ponto de vista a respeito do estado em que se encontra a Varig. Primeiro por respeito a alguns amigos que trabalham lá. Depois por respeito a diversos funcionários da companhia, com os quais tive algum relacionamento e partilhei dezenas de viagens aéreas que a minha vida profissional me impôs.

Mas na última quarta-feira (26/04/2006) vivenciei uma situação nonsense. Tal fato pode ajudar a entender a situação a que a Varig chegou. Adquiri uma passagem do Rio para São Paulo pela Internet. Como o cartão de crédito que possuo não era aceito pela companhia, precisei ir a uma loja da Varig para pagar a passagem.

Reserva feita e confirmada, parti com o e-mail impresso para a loja da Varig na Av. Paulista para efetuar o pagamento. Cheguei às 16:52h e a loja estava cheia. Fui falar com uma funcionária que estava sentada junto a uma daquelas maquininhas que distribuem senhas. Expliquei que já tinha a reserva e queria somente efetuar o pagamento.

Ela então retirou uma senha da maquininha e me pediu para esperar ser chamado. Ainda argumentei que ao contrário de 90% dos presentes, que estavam lá para marcar passagens, escolher datas e destinos, muitos tentando usar de qualquer maneira suas milhas poupadas, eu só queria fazer um pagamento… já tinha tudo definido. Onde era o caixa?!

Sem sucesso. Olhei no placar eletrônico e estavam chamando o número 8120. Bom, deu tempo para fazer uma pesquisa e verificar que em situação muito parecida com a minha, havia dois motoboys que só estavam lá para apanhar passagens já emitidas (e provavelmente pagas). Mas também esperaram a vez pelo número da senha.

Depois de uma hora e quarenta minutos de espera e uma ligação para a central de reservas da Varig para solicitar que a minha reserva não caísse às 18h, fui o último cliente atendido. Devo ter deixado o funcionário feliz, pois ele gastou menos de 3 minutos para passar meu cartão de débito e formalizar o pagamento da passagem, para então encerrar seu cansativo dia de trabalho.

Nessas quase duas horas de espera, lembrei que quando comecei a trabalhar na aviação em 1979, tive a oportunidade de conhecer profissionais que trabalharam na Panair do Brasil. Todos, sem exceção, me contavam histórias que qualquer um pode ler hoje no livro Pouso Forçado (Daniel Sasaki – Editora Record), ou seja, em uma situação financeira melhor da que a Varig está hoje, a Panair foi fechada pela ditadura militar e suas linhas internacionais entregues para a Varig.

Lembrei também quando a GOL apareceu no mercado aéreo nacional com bilhetes que eram muito semelhantes às notinhas de supermercado. Nessa época, a Varig usava bilhetes com capa de papel especial e com diversas folhas carbonadas (esse era o modelo da época). Esses bilhetes (da Varig) eram enviados do mundo todo para alguns poucos pontos centralizadores, onde eram digitalizados e arquivados em uma base de dados para conferência e controle.

Desconheço se eventuais fraudes tenham diminuído a velocidade de crescimento da Gol. Acho que não. Tentei imaginar e calcular a diferença de preço do bilhete de supermercado comparado com o de capa especial e folhas carbonadas vermelhas. Não consegui imaginar um parâmetro concreto de números, mas não tenho dúvida, que com o bilhete de supermercado, a Gol precisava de menos passageiros que a Varig para ter seu custo pago.

Toda aquela situação de espera fez com que meus pensamentos viajassem pelo passado. Esses devaneios só eram quebrados pela torcida para que o dono do número da vez tivesse desistido e não estivesse presente.

Mas lá pelo número 8145 me lembrei de um caso que aconteceu há uns 4 anos. Tão logo acordei, peguei o telefone celular na mesinha de cabeceira para comprar uma passagem da Ponte Aérea pela TAM para poucas horas depois. Ao completar a ligação, a gravação me solicitou o número do meu cartão fidelidade. Como o cartão não estava comigo, desliguei a ligação e fui apanhá-lo. Qual não foi a minha surpresa quando na volta para o quarto, o celular tocou e era da TAM. Eles me chamavam pelo nome e perguntavam se eu precisava de ajuda, pois a ligação havia sido encerrada antes do término esperado. Fiquei encantado.

São pequenos detalhes que, somados, podem explicar alguma coisa. Não bastou para a Varig ter um time de profissionais nota DEZ. Isso é um fator muito importante, mas não é tudo. Torço para que todos esses profissionais possam continuar oferecendo um serviço de classe mundial pelos céus do Brasil e do mundo. Independente da bandeira que estejam carregando. Sorte, sucesso e grande abraço para os amigos da Varig. Tenho saudades do tempo que meu cartão Smiles era diamante, era sinal que só voava com eles.

(*) Foto: Comandante Marcel Bastos pousando um Boeing 737 da VARIG no Aeroporto Santos Dumont com o Rio de Janeiro de pano de fundo. Me falta esse pouso da cabine. Grande abraço Marcel.

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