A primeira vítima é a verdade


Ataque israelense à GazaÉ sobre o conflito no Oriente Médio que vou escrever. E se você já foi se abaixando para pegar uma pedra, vou logo dizendo, sou contra qualquer guerra. E se vai ficar com ela na mão com alguma intenção de jogar, vou considerar que você pensa em devolver as terras a oeste da linha divisória do Tratado de Tordesilhas, ou quem sabe, as que foram tomadas do Paraguai, depois que nos metemos, juntos com argentinos, a derrubar o governo uruguaio que não nos interessava, o que causou revolta paraguaia e uma declaração de guerra. Perdida por eles, paraguaios, e como consequência desse resultado, garantem alguns estudiosos, nosso vizinho está a quilômetros de distância do país rico que já foi.

Desarmados? Ok, então vamos em frente. Até porque não gosto do modelo gado, de seguir a onda, e escolher um lado qualquer com a facilidade de não queimar nenhum neurônio. Vamos pensar.

Nos primeiros dias de conflito, lá no comecinho, conversei através do messenger com o amigo André Fucs, judeu (mas batizado e crismado) que anda expatriado pela Ásia e Oceania, e que já morou em Israel. Puxei o assunto dos ataques israelenses à Gaza. Protestei contra a violência da resposta contra o Hamas, comparei com a política de enfrentamento da Polícia Militar do Rio de Janeiro contra os traficantes (guerra sem fim), expondo os moradores das favelas cariocas, resmunguei da falta de ponderação entre judeus e muçulmanos, que não conseguem se entender há mais de mil anos.

Ganhei como resposta que Israel tinha todo o direito de defender seus cidadãos dos ataques com mísseis que o Hamas vinha executando. Que ele havia morado lá, e que era um horror ter que correr para quartos com segurança reforçada, ou imaginar que aquele cara ao seu lado na lanchonete, tem toda a pinta que pode ser um homem bomba (seria homembomba?). Ainda por cima, ele me jogou de volta (que mania), a minha própria ignorância: o problema entre israelenses e palestinos não tinha mais que cem anos. Nada de disputa milenar.

Não gosto de perder discussão para ele, ele é ariano, chato e metido como todo ariano, eu sei disso muito bem, também sou ariano. Então o que fiz? Fui estudar. E estudei. Li vários sites, com opiniões (excluí as radicais) a favor de um lado ou a favor do outro. De todos os que li, recomendo a leitura: como visão pró Palestina, o site Triplov e, como visão pró Israel, o site Beth-Shalom. Simplificando, concluí que o maior culpado disso tudo foi a Inglaterra. Que tinha responsabilidade na região para criar o estado da Palestina e se omitiu, não cumpriu a determinação que os países vencedores da Primeira Guerra Mundial lhe deram. Enfim, lavou as mãos para um problema entre povos que talvez, eles não achassem tão nobres, a ponto de precisarem se importar com as consequências futuras (que vemos hoje).

Vejo também uma agenda oculta em curso pelos israelenses, que é acabar com qualquer possibilidade de unidade entre o povo palestino. Não, não vejo uma limpeza étnica como alguns exaltados andam gritando e babando. Não se faz limpeza étnica de milhões de pessoas, com a morte de mil delas, isso a PM do Rio faz de dois em dois anos e nada muda no Rio de Janeiro. Israel tem capacidade bélica para uma verdadeira limpeza étnica, mas não é isso que eles querem fazer. Eles querem todas as terras na área da Palestina, até aceitam palestinos, mas que não se explodam em ônibus ou centros comerciais e, que aceitem a derrota de não mais poder ter o seu estado (Palestina) e convivam respeitosamente com israelenses ou se mandem para outros lugares.

Vejo ainda, que os vizinhos árabes (valentões a distância), que inflamam e fomentam a revolta dos palestinos contra Israel, nunca fizeram nada concreto para ajudar um povo que hoje, não tem futuro. Que vive refugiado em sua própria terra, oprimido em guetos onde só o ódio consegue se procriar. Aliás, alguns deles fizeram sim, assim que Israel declarou sua independência e se autoproclamou um estado, em 1948, forças da Jordânia, Egito, Síria, Líbano e Iraque entraram na Palestina para acabar com o estado israelense. Perderam a guerra, perderam território e deixaram os palestinos mais longe de poder viver um futuro.

Não li em lugar nenhum, mas vi ações fortes coordenadas pelos presidentes dos Estados Unidos, Jimmy Carter (entre Egito e Israel) e Bill Clinton (entre Israel e a Organização pela Libertação da Palestina – OLP) na tentativa de acordos. Nunca vi seu Ahmadnejad, (ele é blogueiro, com nofollow) tresloucado presidente do Irã, estender a mão para um acordo. Ele e outros radicais muçulmanos e árabes só pregam o fim do estado de Israel. Como isso é impossível, essa atitude só faz prejudicar os palestinos, pois havendo só quem neles fomente mais ódio, sem ninguém quem os defenda de verdade, eles vão aos poucos perdendo definitivamente seu futuro e suas terras para Israel.

Vamos cobrar dos dirigentes do resto-do-mundo, uma ação concreta para a solução definitiva para a região da Palestina, o povo palestino quer poder ter novamente sonhos para o futuro. Em um conflito, uma guerra, a primeira preocupação que todos deveriam ter é salvar, em primeiro lugar, a verdade. Pois é ela que é sempre a primeira sequestrada, por ambos os lados.



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10 Comments

  • Nine disse:

    Nelson voce pegou pesado nesse domingo cinza e abafado aqui em SP.fazer a gente ter conciencia as 7hs da manha é demais…Nao sou ariana ,sou espanica, entao ,nao sou chata nem metida…mas gostaria que os Palestinos pudessem voltar a sonhar de novo!abs

    • Nelson Correa disse:

      Oi Nine,

      Para os domingos de manhã, mesmo os cinzas, sempre é melhor algo mais leve ou mais risonho. Mas tenho que colocar tudo nesse garrafa. E me preocupo quando um montão de gente prefere tomar partido e torcer fervorosamente para um dos dois lados, como se isso fosse um jogo de futebol. Tem gente morrendo à toa. A ficha precisa cair.

      E não é só mentes vazias que agem assim. O prêmio Nobel José Saramago em seu blog descarrega toda a culpa desse confronto em Israel. Eu acho a reação de Israel absurda e sem sentido, mas Israel reagiu. A primeira pedra foi jogada pelo Hamas. Se alguém quer ajudar, por favor, não venha com mais pedras (ou mais mísseis).

      Desculpe Nine, preferiria que nossos domingos fossem sempre azuis e ensolarados, mas nunca com mais de 25ºC. Detesto excesso de calor.
      ;-)
      Abraços,

  • Barts disse:

    Eles nao querem limpeza etnica. Querem deixar claro quem manda nas terras palestinas, que nao sao palestinos. Até aceitam palestinos lá, como eu aceito visitantes na minha casa, dou cafezinho, mas nao admito que se metam na forma como eu a administro …

  • Enio Luiz Vedovello disse:

    Tentando não entrar no mérito da disputa, tentando ser imparcial como você brilhantemente foi, penso que se Israel teve direito à criação, em 1948, de seu estado, a lógica é que a Palestina também tenha. Garantidos (de verdade) os dois estados, aí sim é o caso de discutir-se outros tópicos relevantes para se chegar a uma proposta de paz para a região.
    E que se salve a verdade e os inocentes. De ambos os lados.

    • Nelson Correa disse:

      Oi Enio,

      Isso parece o óbvio, não é? A criação do estado da Palestina. Mas não é óbvio…
      :-(
      Desde a criação do estado de Israel, em 1948, um grupo de árabes, incluindo o Hamas hoje (apoiado pelo Irã), só considera a hipótese de acabar com o estado de Israel.
      :-s
      Venhamos, com essa demanda como prioridade, realmente é difícil sentar à mesa para qualquer negociação.
      :-(
      Espertamente, como não há negociação, só violência, Israel tem sido mais forte e competente para ir ampliando seu território. A quem interessa esse impasse?

      Abração,

      • Enio Luiz Vedovello disse:

        A quem interessa, não sei. Mas que interessa a algum grupo forte e muito bem posicionado, disto não tenho dúvidas.
        Não faz muito tempo, eu e a minha filha assistimos a um filme excelente, “A Caçada” (The Hunting Party), com o Richard Gere. Baseado em fatos reais. Embora a história do filme se passe em Sarajevo, as reflexões que ele lança no final servem para diversas situações que todos nós conhecemos.

        • Nelson Correa disse:

          Oi Enio,

          Acho que não vi esse filme não. Se vi, como é comum, já esqueci.
          :-D
          Mas concordo contigo, sempre há possibilidade para uma teoriazinha da conspiração. Aliás, já imaginei cada uma!
          ;-)
          Abração,

  • Carol Costa disse:

    Ótima argumentação, Nelson. Que a verdade prevaleça, sempre.

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